O que o futebol brasileiro precisa fazer com a “creche” para não ficar só com a “geriatria”, por Eduardo Marini

Flamengo e Fluminense decidirão nesta sexta-feira 21, a Copa do Brasil Sub-17, dedicada a jovens entre 15 e 17 anos. Tudo conspira para uma festa bonita: o jogo final será no “templo” do Maracanã. Em campo estarão duas pedras preciosas da bola que, ainda com espinhas no rosto, despertam a cobiça de grandes times europeus: o atacante tricolor Marcos Paulo e o meia rubro-negro Reinier.

Marcos Paulo, 17 anos, tem multa de transferência estipulada em 45 milhões de euros (R$ 198 milhões). Juventus e outros times italianos observam o garoto.

Reinier, 16, com multa de impressionantes 70 milhões de euros (R$ 308 milhões), é tido por muitos olheiros internacionais como o melhor jogador de até 16 anos do mundo. Roma, Juventus e Real Madrid o monitoram com cuidado. Milan enviou olheiros para analisá-lo em jogos no Brasil. Outros gigantes certamente disputarão a joia.

Enumero essas cifras para defender uma tese: clubes e técnicos brasileiros precisam admitir a necessidade de preparar esses fora de série para jogar o mais cedo possível nas equipes principais, profissionais, “de cima”.

Isso porque a relação atual dos clubes brasileiros com seus jovens craques, como eu e meu irmão Christian Marini costumamos brincar, é pautada pelo dilema “creche e/ou geriatria”.

Significa o seguinte: negociam o jovem cedo e o aproveitam por um curtíssimo período, antes da ida, e depois o contratam veterano, em torno ou acima dos trinta anos, numa aposta quase sempre de risco.

Não há indício de que cenário mudará tão cedo. Ao contrário: basta verificar a idade de quase todas as revelações brasileiras vendidas recentemente. Vinicius Jr. (Flamengo) e Rodrygo (Santos) foram negociados com o Real Madrid por 45 milhões de euros (R$ 198 milhões) aos 16 anos.

Lucas Paquetá (Flamengo) foi para o Milan por 35 milhões de euros (R$ 154 milhões) um pouco mais “velho”, é verdade, com 21. Mas seu caso é exceção que apenas reforça a ideia. Houve nítida demora no aproveitamento de Paquetá no profissional, pois seu talento vinha sendo badalado há pelo menos quatro anos.

Eles e outros seguem a tendência de perda precoce. Entre exemplos recentes, lembro-me de Marcelo, o melhor lateral esquerdo do mundo, vendido ao Real Madrid pelo Fluminense com menos de uma temporada de profissionalismo. E, no sul-americano, do argentino Messi, capturado pelo Barcelona sem sequer ter atuado em um clube de seu país.

Como quase nada indica que nossos times terão, ao curto prazo, condições de compensar as propostas e convencer os talentos, seus familiares e empresários a desistir das transferências precoces (a contratação mais cara de uma equipe brasileira nos últimos 13 anos, a de Vitinho, pelo Flamengo, clube de maior orçamento do País, junto ao CSKA, da Rússia, somou dez milhões de euros, ou R$ 44 milhões), não há saída a não ser trabalhar com profissionais para o rápido amadurecimento desses fora de série. E colocá-los logo, o mais rápido possível, em campo.

Zico transferiu-se do Flamengo para a Udinese, da Itália, aos 30 anos, mesma idade de Sócrates ao trocar o Corinthians pela Fiorentina. Falcão foi do Internacional para a Roma aos 27.

Argumentos como “os garotos ainda são imaturos” ou “lançar muito jovem vai queimar o menino” serviam para aqueles tempos em que os ídolos iriam embora após atuarem no Brasil por seis, sete, oito, dez anos ou até mais.

Na realidade atual, são desculpas caducas, obsoletas. Servem, antes de tudo, para manter técnicos e dirigentes na zona de conforto de não assumir o preparo global dos rapazes para que possam beneficiar clubes e alegrar nossas torcidas por mais tempo. Com isso, fogem também do risco de precisar trazer de volta um desses atletas às divisões de base caso ele ainda se mostre imaturo para a tarefa.

Mas é imperioso que tenham coragem para mudar de conceito e postura. Essa história de “queimar” não existe mais, mesmo porque, se o jovem realmente tiver valor, vai voltar ao preparo, ter chances e brilhar. O próprio Zico foi promovido ao profissional, devolvido por um tempo à base e em seguida colocado novamente na primeira equipe. E virou o Zico. Sinal de que essa história de “queimar” serve mais para proteger treinador, comissão e cartola do que jovem jogador.

Ou clubes e técnicos brasileiros passam a agir de acordo com a realidade ou então, em pouco tempo, iremos acompanhar a estreia de Rainers e Marcos Paulos da vida exclusivamente pela tevê – em um estádio do outro lado do Atlântico.